Ela escreve, ele fotografa. Os dois, agora juntos num segundo capítulo.

Uma outra Bruxelas

Sábado à tarde, um pouco depois do almoço. O único café das redondezas está fechado - lá se vão as nossas esperanças de um expresso. Nesta parte da cidade, os arranha céus partilham a geografia com as pequenas casas, um alpendre na entrada, um jardim cuidado nas traseiras.

Estamos em Evere, uma das dezanove comunas da região de Bruxelas Capital e o Sol saiu, decidido mas ainda frio. Não se vêm hordas de turistas guiados por alguém com um guarda-chuva no ar, nem casais em potencial lua de mel, nem turistas cheios de dinheiro a alternar as visitas às lojas de luxo com a ocasional espreitadela nos especialistas chocolateiros. Aqui ninguém se amontoa frente a uma estátua minúscula como a do Manneken Pis nem se perde à procura da Jeanneke Pis por entre ruelas sujas e a cheirar a cerveja. Mas também não há praças nem palácios imponentes (lembro-me sempre do Palácio da Justiça, em obras de restauração que parecem eternas). Não podemos passear-nos pelo mercado do largo de Sainte Catherine, nem pela feira da ladra incrível que acontece na Place du Jeu de Balle. Os transportes são mais escassos, há mais lugares de estacionamento e ainda nos cruzamos com muitas mulheres de véu, grandes famílias africanas, um curioso número de indianos e paquistaneses. Numa das ruas, corroborando a teoria de que estamos em todo o lado, ouve-se falar Português.

Evere é o típico subúrbio de uma grande cidade. Nesta zona, o pequeno comércio é quase inexistente: sobrevivem na zona um ginásio, uma loja tipo dos trezentos (apinhada de gente num Sábado à tarde), uma loja de brinquedos. Há crianças nos parques e, embora o dia seja de Sol, este vai descendo progressivamente e com ele o frio que vem com as sombras. Há zonas que parecem uma pequena aldeia, onde apenas circulam os carros dos moradores em ruas estreitas e rotundas subentedidas e só depois de uma boa caminhada conseguimos achar um café onde nos dividimos entre expressos, águas e cervejas. Sente-se o silêncio das franjas da cidade enquanto os carros não passam. Como no centro, as ruas não estão limpas - para mim, talvez o grande defeito de Bruxelas.

Se não vivesse no Luxemburgo e pudesse escolher outra grande cidade europeia, seria quase de certeza Bruxelas. Mesmo com a sua sujidade, trams à pinha, problemas de integração, massas de turistas. É uma cidade viva (até nos Domingos), há sempre gente na rua, a diversidade cultural (e, consequentemente, gastronómica) é incrível, há parques e crianças por todo o lado. E por isso visitamo-la uma e outra vez!

Spring fever / Spring is here at last / Spring fever / my heart's beating fast*

Longing for remoteness