Ela escreve, ele fotografa. Os dois, agora juntos num segundo capítulo.

Férias, dias 7 a 21: calor a Norte, a Centro e a Sul

Esta parte da viagem é a mais difícil de descrever: Portugal. Quantas dias, quantas horas precisamos para ver todos de quem sentimos saudades? Como podemos organizar o tempo para visitarmos todos os sítios que tanto nos faltam quando estamos mais longe? Como nos podemos efectivamente dividir para recuperar todas as memórias, voltar a guardar os cheiros, comer tomatadas e migas de pão, bifes na pedra e carne de porco à alentejana? O que é preciso para resistir ao chamamento da terra, para não decidir simplesmente que não voltaremos a partir?

Quatro anos depois de sairmos de Portugal, fazemos isto tudo por instinto. Desistimos de planear muitas coisas, desistimos de marcar muitos encontros, desistimos de correr. Quando voltámos nas primeiras vezes, o tempo estava tão compartimentado, esticado e definido que nada sabia a férias. As obrigações que nos impúnhamos para chegar a todos e a todo lado transformavam as nossas férias nisso mesmo - obrigações. E, para quem espera quase todo o ano por estes dias, o sabor não podia ser mais amargo.

Temos muitas saudades de muitas pessoas mas precisamos de tempo para nós. E optámos por encontros mais espontâneos, por combinações em cima do joelho, por algumas surpresas. Não queremos que as pessoas estejam pendentes da nossa agenda mas queremos cumprir essa agenda. Que normalmente significa fazer tudo com tempo, saborear os sítios, satisfazer aquelas necessidades básicas (um banco no Guincho, um pastel de nata na Tentadora, uma descida do Chiado) sem pensar onde temos de estar a seguir. E assim ainda conseguimos ver alguns amigos e alguma família, nunca os suficientes, nunca por tempo suficiente mas contentamo-nos com este meio termo.

Depois de três dias em Portalegre para aquele reencontro básico com a família, levámos os miúdos para o descanso dum hotel rural, entre a Beira Alta e o Douro. Visitámos castelos super antigos, batalhámos moscardos e abelhas, mergulhámos em piscinas, conduzimos junto ao Douro e junto ao Côa, sentimos muito, muito calor e deixámos os miúdos serem as estrelas da nossa estadia. São tão expansivos que não podemos impedir que as pessoas se cheguem e falem com eles e se riam com aquelas caras que eles fazem. Mas são os dois máquinas de espalhar o cansaço e acabámos os dias a precisar... de mais férias.

A caminho de Portalegre, para os deixarmos com os avós, um breve salto à Covilhã para um calor insuportável, um almoço feito de tapas ao fresco, conversa recheada de boas ideias e vontade de mudar, a arte urbana a mudar a paisagem de paredes antigas. Depois de os deixarmos em Portalegre, Lisboa a dois. Quatro dias para decidir coisas à pressa, para pegarmos no chapéu de Sol e chegarmos à praia à uma da tarde, para procurarmos brunches em sítios bonitos, para comprar livros e comer caracóis. E também para acordar sem despertador ou simplesmente descansar às escuras depois de uma tarde de calor. E outra vez aquela sensação de que nunca saímos dali, nunca deixámos de passear pela Estrela, nunca tivemos de ir. Mas logo fomos lembrados de que era tempo de regressar ao sítio que não é nosso mas também é nosso. Alguma vez conseguirei explicar?

They tell us "Autumn's a comin' and soon everything around us will die*

Férias, dias 5 e 6: voltar à estrada com uma pit stop em Lausanne