Ela escreve, ele fotografa. Os dois, agora juntos num segundo capítulo.

It's a rainy day in June / The sky is gray and I am blue*

Chegou Junho, há uma semana, e com ele a promessa do Verão. Este ano, digo promessa porque ainda não tivemos oportunidade de saborear alguns dias de Primavera e, porque o Verão nos parece uma estação inalcançável.

Os miúdos têm uma pisicina nova por estrear, a relva não pára de crescer no jardim e já começamos a ver uns projectos de cerejas numa das árvores do quintal. Esta árvore será sempre um mistério para mim, porque não consigo entender como pôde florescer e como poderá dar frutos se o calor se recusa a instalar. Talvez ela seja um símbolo do que é ser resiliente, do que é suportar as adversidades e ainda assim cumprir o seu propósito silenciosamente.

Os vizinhos cortam a relva, à espera do tempo quente. As suas pequenas hortas também se insurgiram contra a falta de luz e calor e cresceram na mesma - mistérios da jardinagem. Há um grelhador na cave aguardando os dias dias mais longos para podermos inaugurar a época dos barbecues. A roupa continua a secar na cave, húmida e lenta, em vez de ondear com aquela brisa quente debaixo de um céu azul. Não custa fechar as persianas quando anoitece porque os dias estão escuros e não há nenhuma réstia de sol para aproveitar.

Sobram-me as fotografias de praias com sol. Sobram-me as previsões meteorológicas que consulto religiosamente em vários pontos da Europa. Sobram-me os amigos nas esplanadas, a terminarem os seus dias e sobram-me as memórias da semana passada: toda a gente na rua, os casacos que podiam ficar em casa, umas horas de praia num subúrbio de Barcelona, as pingas que não chegaram a cair. Sobra-me a ideia do Guincho num dia sem vento e aquelas noites em Portalegre em que até custa a dormir. De que vale anoitecer mais tarde aqui, se todo o dia é passado debaixo do cinzento escuro opressor das tempestades que têm cercado o Luxemburgo? De que valem festivais assombrados pela queda de relâmpagos e atravessados por rios de lama?

Tenho saudades de quando o Verão era Verão a sério e nem se podia pôr o pé em Badajoz. Tenho saudades de estar em casa, toalha nos ombros, para ajudar a limpar o suor. Tenho saudades de ir para o trabalho antes das sete da manhã e poder ver nascer o mais glorioso dos dias durante os meses de Verão. Já sei (muita gente faz o favor de me lembrar de vez em quando) que não se pode ter tudo mas será que podíamos ter um pouco de Verão ainda este ano?

* hoje é com a Rainy Day in June do Alan Jackson.

A Portugal, neste dia que é o seu

Sweet Home Alabama / Lord, I'm coming home to you*