Ela escreve, ele fotografa. Os dois, agora juntos num segundo capítulo.

A Portugal, neste dia que é o seu

Tenho saudades tuas, Portugal. Já lá vão quatro anos de distância e visitas pontuais, umas mais longas, outras bem curtinhas, e ainda me fazes falta. Tantas vezes desejei ser como muitos emigrantes que já vi por aí e que nunca têm saudades de casa. Eu tenho saudades do meu país todos os dias mas sei que agora não podia senão estar aqui.

Hoje não tenho saudades do teu bom tempo, nem do peixe fresco e muito menos dessa maravilhosa linha de costa, umas vezes deserta, outras arrasada pela construção legal mas desordenada. Hoje fazem-me antes falta as tuas imperfeições, as graças de que se faziam os nossos dias quando vivíamos aí, as pequenas exasperações e tristezas diárias que nos davam que suspirar. Porque (às vezes) me parece que a vida era mais vida aí. Porque, suprimindo com facilidade as necessidades básicas, a vida fica progressivamente mais chata. Tenho saudades das coisas más, se é que me entendes. Tenho saudades das coisas que me fazem hoje agradecer viver noutro sítio.

Os teus estendais de roupa onde calha, cuecas de velha e meias de rapaz novo, os lençóis de flanela a secar antes de voltarem para o armário. O desleixo com que se tratam quintais e pequenos jardins, transformando um pedaço de terreno na mais feia amostra de selva urbana, restos enferrujados a conviverem alegremente com aloe vera que alguém plantou porque se calhar cura o cancro. O parque automóvel gasto e antigo, com as pequenas jóias da coroa estacionadas à porta e os senhores que lavam o carro com um esmero nunca visto, após o que retocam o terço no espelho retrovisor e ajeitam os naperons ou as saias da boneca da Nazaré atrás dos bancos. Os velhos sentados nos bancos, levantando a bóina a toda a gente que passa ou os que vão, mãos atrás das costas, fiscalizar o estado das obras que se multiplicam pelas cidades. As ruas de comércio nos estertores finais, montras forradas a papel pardo e uma folha impressa em casa a informar que a loja fechou para sempre. A assimetria que nunca parou de crescer entre o teu litoral e o teu interior, meu Portugal, um país a duas velocidades, a braços com a miséria local e a prosperidade do turista.

Tenho saudades, Portugal. Mesmo quando penso naquele sentimento de impunidade sempre que um peixe graúdo cai nas redes da justiça ou no imenso abismo que vai das ideias que têm os governantes de ti e a tua realidade, desboroada e bafienta mas sempre a prometer que a renovação está aí, que agora é que é. Quando te cumprirás, meu país lindo e desigual? Quando darás mais à tua gente em vez das massas de turistas que, opulentas e desgovernadas, chegam para ver como se vive?

Tenho muitas, muitas saudades e muitas vezes sonho que passeio pelas ruas da capital, mesmo que estejam cheias de lixo e de cocó de cão que os moradores se empenham a ignorar. Voltaria, assim o pudesse fazer, mesmo sabendo dos valentões das caixas de comentários que são depois incapazes de lutar por aquilo que querem, dos favores, amigos e padrinhos, desse mundo onde é preciso uma cunha para se ser operado a tempo, da resignação dos sacrifícios. Não me lembro só da luz de Lisboa e da serenidade de Portalegre, dos miradouros sobre o Tejo e das chaminés da Robinson (que me perdoe o resto do país mas eu nunca pude mover-me fora deste eixo de duzentos quilómetros entre o litoral cosmopolita e o interior escaldante e [d]esquecido). Lembro-me de tudo o que tu és, do cheiro a urina nas escadas da minha rua, as obras onde sempre derrapam orçamentos e prazos, da falta de civismo dos condutores, dos sítios onde os portugueses não mais do que clientes de segunda, dos transportes cheios e esporádicos, dos carros em segunda fila, das reformas de miséria.

Mas logo me lembro que o nosso país é como a nossa família: não a podemos escolher, não lhe podemos fugir. E não há remédio senão amá-los profundamente, conscientes das suas qualidades e das suas falhas, não resistindo ao seu chamamento. Feliz dia, Portugal! Oxalá os nossos caminhos ainda se possam cruzar com mais vagar.

Meng Lëtzebuerg #3: o dia nacional é uma festa!

It's a rainy day in June / The sky is gray and I am blue*