Ela escreve, ele fotografa. Os dois, agora juntos num segundo capítulo.

We close our eyes / The perfect life life / Is all we need*

Dias há em que me é muito difícil gostar de pessoas, especialmente aqui. Falávamos no outro dia com um vendedor num stand de automóveis que nos dizia que, entre as coisas de Portugalque lhe faziam mais falta, estava sem dúvida a simpatia da gente. Na verdade, há dias em que nem a simpatia me salva de uma certa misantropia.

O meu desencanto com pessoas não nasceu no Luxemburgo - pelo contrário, já o trouxe comigo de Portugal. A natureza dos meus empregos sempre me obrigou ao contacto com as pessoas, ainda que nem sempre cara a cara. Nunca tive daqueles trabalhos em que estamos enfiados num gabinete sozinhos, com uma porta que podemos realmente utilizar e onde às vezes até há silêncio. Esta moda (que já vai demasiado longa, se me perguntarem) dos open spaces chateia-me e não é pouco e, ainda por cima, parece destinada a perdurar. É bom para promover a partilha do conhecimento, dizem uns. É excelente para controlar a eficiência dos trabalhadores, dizem outros. Eu cá acho chato, já para não dizer que é também o maior foco de distracção para quem quer estar uns minutos focado em qualquer coisa. No meu espaço de trabalho, como em muitos pelo mundo fora, é muito difícil alguém concentrar-se quando há pessoas ao telefone durante longos minutos, em decibéis acima do aceitável e em três ou quatro línguas diferentes. Depois há sempre aquele que não fecha a torneira da casa de banho, o que estaciona no lugar proibido, o que não acciona a máquina de lavar, o que rouba iogurtes, os que deixam copos e colheres espalhados por todo o lado. É uma canseira de pequenos queixumes a que estaria mais imune se tivesse um escritório, mesmo que minúsculo, só para mim. Pior do que tudo, são aqueles que se fingem de desentendidos e não se comprometem com nada, ou aqueles que têm sempre opinião sobre tudo - quando nem sequer lhe perguntámos nada - ou aqueles que ficam à espera que façamos também a sua parte do trabalho.

Mas esta minha espécie de ódio, se assim o quiserem chamar, não está limitado às pessoas com quem partilho ou já partilhei um local de trabalho. Estes agentes promotores das camadas de nervos estão por todo o lado: naqueles que resolvem continuar naquela rua que está marcada como apenas de um sentido, naqueles que ocupam dois lugares de estacionamento, nos que se param a conversar nos corredores mais estreitos dos supermercados, nos que fingem que não nos vêem para não dizer bom dia, nos que estacionam em quarta fila porque só vão ali num instante. A grande diferença entre os chicos-espertos de Portugal e do Luxemburgo é que os Portugueses são bem mais calorosos, inventivos e espontâneos, há que dar o braço a torcer. Acho que prefiro aquele chico-esperto que se mete à nossa frente à última da hora mas que acena e ri-se pelo retrovisor porque, no fundo, sabe que fez asneira do que faz exactamente o mesmo mas mantém o semblante carregado porque acha que estava no seu direito!

Nos últimos anos, creio que se tornou num sacrilégio dizer numa entrevista de emprego que não se gosta de trabalhar em equipa: todas as ofertas de que me lembro valorizam muitíssimo esta característica por razões que me escapam. É que nem todos os trabalhos necessitam de alguém que funcione bem em grupo! Importante era que se valorizasse as pessoas que sabem quando devem estar caladas. Ou que não deixam copos de plástico pelas mesas do escritório. Ou que conseguem respeitar os princípios mais básicos do civismo e cidadania. Gostar de outras pessoas é overrated.

* com o Moby em The Perfect Life.

Sweet Home Alabama / Lord, I'm coming home to you*

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