Ela escreve, ele fotografa. Os dois, agora juntos num segundo capítulo.

Verkauf dich nicht, Berlin / Jung bist du nicht / Du alterst so schnell*

Vivi em Berlim durante cerca de seis meses, entre 2004 e 2005. Não foi muito tempo, bem sei, mas foi o tempo suficiente para ter saudades da cidade e para saber que um dia poderia mesmo voltar. Vivi em pleno Kreuzberg, rodeada de lojas turcas, paredes grafitadas, perto dos canais e do Spree. Tive uma bicicleta em segunda mão, visitei muitos Flöhmärkte onde me arrepiavam as montanhas de sapatos à venda, dancei num barco atracado perto da Oberbaumbrücke, comi dönners pela primeira vez. Não aproveitei aqueles meses como devia, sei-o hoje, mas o que vivi marcou-me muito.

Já tinha voltado a Berlim em 2006 (acho eu), com a minha irmã e um coração despedaçado. Este ano voltei em família, depois de sete horas de viagem para atravessar quase toda a Alemanha. Desta vez, ficámos na área da Kurfürstendamm, onde antes não tinha passado muito tempo e perto de onde aconteceu o atentado da semana passada. Passeámos junto às montras das lojas de luxo, contornámos o Zoo. Andámos quilómetros atrás de quilómetros, empurrando um carrinho e um chavalo de seis anos para o qual é precisa muita paciência. Almoçámos em plena Unten den Linden, depois de visitarmos as portas de Brandeburgo e o Memorial aos Judeus Mortos na Europa.

Subi pela primeira vez à Fernsehturm, onde pude apreciar a cidade em toda a sua grandeza; sentei-me descansando no Checkpoint Charlie, levámos os miúdos a brincar com Lego (numa grande desilusão), estive à porta do rés do chão onde vivi aos vinte e quatro anos e onde deixei de fumar. Fazia frio em Berlim, tivemos direito a Sol e a chuviscos, admirámos grafitis e colagens de cartazes, vimos as garrafas vazias pelos cantos e as discotecas onde, em pleno dia, ainda se vivia o after.

Continua a parecer uma óptima cidade para se viver com filhos, algumas zonas parecem atacadas pela febre do consumo mas essencialmente encontrei uma cidade que pude reconhecer. Não é nenhuma Lisboa mas garantiu, há muito, o segundo lugar no meu coração.

* nas palavras de Klaus Hoffmann.

Longing for remoteness

Estugarda